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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Nelson triunfense: Um artista que fez do hip-hop sua profissão de fé

Ele fez do hip hop sua profissão de fé. Mas não só isso. Dançarino, arte-educador, ativista, Nelson Gonçalves Campos Filho foi responsável por uma revolução cultural e social nunca antes imaginada por aquele menino que, entre 15 e 16 anos, resolvera sair de Triunfo para desbravar o país. Hoje, Nelson Triunfo é uma verdadeira instituição da cultura black em todo o país. Atutalmente, vive em São Paulo e, prestes a completar a 60 anos (em outubro próximo), ele tem muita história pra contar. É o que está no filme "Triunfo", documentário de Cauê Angeli e Hernani Ramos, sobre sua trajetória, que será exibido na sessão especial de encerramento do 7º Festival de Cinema de Triunfo, em que ele é um dos homenageados.

"A minha meta era sair da cidade para ganhar a vida lá fora e, um dia, ser reconhecido aqui", diz Nelson. Parte disso se deve à curiosidade aguçada do menino que lia as revistas da época (Manchete, Cruzeiro, entre outras) e conseguia sintonizar rádios estrangeiras. Tudo isso, sempre muito atento ao que acontecia no Brasil e fora do país. Rumou para Paulo Afonso, onde trabalhou com topografia e já fundou um grupo de soul. De lá, seguiu para Brasília, e, finalmente, São Paulo, onde resolveu se fixar em definitivo. E foi em Sampa que decidiu viver da dança.


Quando partiu de Triunfo, Nelson já levava consigo a "manha" da cultura black nas veias e na ponta dos pés. Ele rezava pela cartilha do Original Funk Soul, o groove/estilo que tem como influência maior o ícone James Brown. Em São Paulo, muito mais do que apenas uma dança ou um estilo, Nelson foi arauto de uma resistência cultural. "A gente se apresentava em alguns lugares em São Paulo, mas havia muito preconceito. Fui chamado de vagabundo e preso muitas vezes apenas pelo visual diferente, o meu black power. Foi muita coragem a gente chegar e mostrar que aquilo era uma outra cultura". Mas ele não se deixou abater pelo olhar torto da sociedade e resolveu encarar de frente o sistema.


Ele e os grupos que se apresentavam nas galerias, foram ganhando as ruas e rompendo barreiras, chegando a se apresentar em algumas edições do Show de Calouros do Sílvio Santos, do Fantástico, marcando a abertura da novela "Partido alto". Na esquina das Ruas Dom José com 24 de Maio, um espaço que virou referência das apresentações do que já, nos anos 80, viria a se chamar o Hip Hop. Nelson Triunfo e os adeptos do Original Soul Funk levavam equipamentos de som, fitas K7 e se apresentavam naquele espaço. "Como a pilha do som acabava rapidinho, a gente passava o chapéu e pedia a contribuição do público pra comprar pilha nova e continuar a apresentação", lembra Nelson. Em meados dos anos de 1980, eles seguiram para a estação de metrô São Bento, onde o movimento se consolidou e ganhou maior visibilidade.

O olhar sobre a cultura hip hop começou, então, a mudar. Muito além de apenas uma dança ou um estilo, eles começaram a ser vistos como instrumento de conscientização social e de formação cidadã. Convites começaram a surgir para que Nelson fizesse projetos de cunho social em escolas nas periferias. "Foi uma época muito boa, aprendemos muitas coisas nas escolas e acredito que deixamos um legado bacana pra várias gerações de crianças e jovens que poderiam estar em outro caminho hoje, mas que, muito pelos trabalhos que fizemos, são hoje doutores, têm seus empregos, sua vida estabelecida", orgulha-se Nelson.


A essa altura do campeonato, ele já havia se tornado um mito em São Paulo. O menino que, um dia, sonhou ter o reconhecimento de sua cidade natal (Triunfo segue com ele não só no nome, mas numa tatuagem que ostenta no braço direito), ganhou o Brasil inteiro. Em uma breve caminhada com ele pelas ruas de Triunfo mostra que ele conseguiu êxito na sua meta. "Nelsão!" é o que se ouve o tempo inteiro. Cumprimentos, saudações... por onde passa, as pessoas o abordam. Uma história de resistência e fé em suas convicções transformou não só a vida de Nelson, mas fez dele símbolo de toda uma geração de guerreiros que vieram provar que uma cultura pode provocar revoluções e mostrar a potência de um Brasil plural, diverso.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Conheça a história da misteriosa cratera de Santa Cruz da Baixa Verde

 
O pequeno município de Santa Cruz da Baixa Verde, no Sertão do Pajeú, guarda um registro fascinante de um evento raro, ocorrido em tempos remotos, há estimados 3,2 mil anos. A misteriosa Cratera da Panela, imenso buraco elíptico de 550 metros de diâmetro e 120 de profundidade, foi aberta pelo impacto de um meteoro, que ainda formou várias lagoas na região. Depois de confirmar a hipótese, dois pesquisadores, um brasileiro e um alemão, propõem que o lugar seja transformado em parque natural.

Na semana passada, o paleontólogo Bernd-D Erdtmann e o professor Pierson Barreto, pós-doutorando no Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema) da UFPE, voltaram a Santa Cruz da Baixa Verde para visitar as Lagoas do Lunardo, Santa Cruz e de Santa Luzia. Eles acreditam que todas sejam paleolagoas (lagoas antigas), formadas pelo mesmo meteoro de 40 metros de diâmetro que abriu a Cratera da Panela. “O que estamos fazendo agora é aprofundar os estudos na área para identificar se essas formações também são de origem cósmica”, explica o professor Pierson.

O professor conta que conheceu a cratera e as lagoas em 1995, durante visita à região. Astrônomo amador desde a adolescência, Pierson resolveu coletar mostras das rochas para fazer pesquisa. Contactou geólogos da UFPE, Universidade de São Paulo (USP) e da Unicamp. Muitos vieram ao local. Em 2005, em viagem a Berlim (Alemanha), conheceu o professor Erdtmann, da Universidade Técnica da capital alemã, a quem mostrou o material. “Ele perguntou se tinham sido coletadas em Yucatán (México)”, lembra, referindo-se à região onde há uma imensa cratera aberta pela queda de um meteoro, há 65 milhões de anos, que desencadeou o processo de extinção dos dinossauros.

Explosão


No ano seguinte, o geólogo e paleontólogo alemão veio a Pernambuco observar o suposto ponto de impacto do meteoro. Erdtmann já conhecia o País. Foi aqui, em 1980, em Corumbá (MS), que ele e o colega Detlef Hans-Gert Walde descobriram e pesquisaram as corumbelas, organismos primitivos que habitaram a Terra há 550 milhões de anos. Antes, já tinha feito um trabalho com técnicos da Petrobras sobre rochas encontradas nas bacias do Rio Grande do Norte e da Nigéria (África), há 100 milhões de anos, que teriam dado origem à parte do petróleo conhecido.

Depois de visitar a cratera, o paleontólogo entendeu que se tratava de um buraco aberto por meteoro. “O mais convincente para mim foi o conglomerado de rochas metamórficas, formado pelo provável impacto de um meteoro, e a forma elíptica da cratera, com uma parte mais profunda que outra”, explica Erdtmann. As rochas cristalinas da região foram fundidas pelo calor da explosão, acima de dois mil graus centígrados, gerando o que os cientistas chamam de impactitos. “Outra causa poderia ser um vulcão, mas a hipótese foi descartada porque não há vulcões na área.” ( JC Online)